Friday, December 08, 2006

A Quase-despedida do Tadeu e meus Wafers

Ele chegou na nossa casa num dia de semana, há mais ou menos 10 dias. Lembro que já era uma dessas manhãs de dezembro, quando o sol só abre um dos olhos. Estava eu completamente absorta em uma das infinitas reuniões gerenciais, quando o celular tocou: era a minha mãe. Não pude atender logo, mas acabei saindo da sala para retornar, pois ela nunca me liga quando sabe que estou trabalhando, para me dizer coisas que não sejam sérias...
E foi então com sua voz doce e surpresa, mamãe me disse que um cachorrinho havia se instalado na nossa casa. Na garagem. E que de lá não queria sair. Ri, aliviada, e disse a ela que a novidade era engraçada, e que quando chegasse em casa o veria. Então no fim da tarde, cheguei em casa apressada, pois ainda daria aula à noite, e vi o Tadeu. Pêlo bege, nariz preto, rabo fino. Vira-lata, vira-lata ao quadrado. (risos)... Comecei a rir, dentro do carro mesmo. Quando desci, ele latiu como quem diz: "Nem vem, que aqui você não entra". Aí minha risada aumentou, ficou potente e mamãe surgiu na porta. Eu disse p'raquele toquinho de cachorro: "Ei, eu moro aqui !!Dá licença???". Gostei dele de cara, de focinho, de rabo, de pulinhos. "Tadeu" ( nome dado pela minha mãe... Se algum Tadeu, ou amigo de Tadeu estiver lendo, I´m sorry ... ) é um filhote. Danado, travesso, ligado numa tomada de 220V. Mamãe já havia dito que ele não podia entrar na sala. E lá ficou, quando eu entrei e fiquei alguns minutos no sófá, olhando pra ele. Quando cheguei em casa, na mesma noite, mas já bem tarde, fiquei sentada nas cadeiras do pátio de casa, e ele fazendo a maior festa. Mordia minha mão com seus dentes finos, recém-nascidos, abanava o rabo e colocava as orelhas para trás. Pulava, corria. Acho uma graça como cachorros são simpáticos.
Hoje escrevendo isso, parece que um filme passa na minha cabeça, de todos os cachorros que já tivemos. O Hulk, que tinha a minha idade ( pastor alemão ). Quando o Hulk morreu, de parada cardíaca, aos 15 anos, lembro do choro alto da minha mãe. Eu também tinha 15 anos, e também chorei. Depois, veio o Lindo ( pastor alemão também ), era da minha tia, mas como ela morava em casa, ficou sendo nosso. Nunca vi cachorro tão danado, o lindo corria tanto no quintal, que a cena da qual mais me lembro é dele correndo com o rabo reto, fazendo uma linha no horizonte. Até que minha tia levou ele de casa. Os dois seguintes, dois Filas brasileiros, Saddam e Hussein ( o segundo era filho do primeiro ), foram as duas grandes piadas da adolescência (minha e do meu irmão). Saddam não sabia nem matar um calango no quintal, aprendeu a latir com o filho, tinha uma cabeçona e liberava gases com uma classe que não vi em cachorro nenhum. O Hussein... ah esse... danado demais, tinha muita personalidade. Era nosso "cachorro japonês!". Por causa dos seus olhos oblíquos. E agora o Tadeu, o primeiro TL da história ( Tomba - lata ). Tão TL que a mamãe não aguentou, e quer dar ele pra alguém.
Tadeu, nesses poucos dias, tomou água da piscina, liberou dejetos onde não podia, se soltou milhões de vezes, ficou inquieto quando mamãe foi dar banho nele. Deixou os pombos comerem a ração dele ( e a mamãe dizendo que daqui a pouco os pombos levariam ele voando ), cavou o quintal, e as plantas da mamãe. Fez xixi na garagem. Derrubou todas as roupas do cesto de roupa suja da área para dormir em cima. Simplesmente minha mãe, que é cri-cri com limpeza, surtou. Chorou, disse que gosta dele, mas que quer ele longe. Um despitch. Agora de manhã ele iria embora. Olhei pra ele, que estava amarrado pela milésima vez na corda e perguntei: "por que tu és tão danado? Custa ficar mais quieto?"... Deixei ele morder minha mão com seus dentes finos pela última vez. Fui passear com ele na frente de casa. E então meu padrasto ligou para um parente dele, perguntando se ele quer o Tadeu, cachorro valente, do focinho preto, um vigia de primeira. Dada a afirmativa, o Tadeu, que ia embora pra outro bairro aqui mesmo em Belém, vai para Castanhal no domingo. Tá lá, na área. Daqui estou ouvindo os latidos dele. Ainda não foi hoje. Será que devo sentar e dizer pra ele não ser danado, que a mamãe pode até mudar de idéia?? Só sei que a estratégia do meu padrasto foi pertinente até demais.
Aliviada, como Wafers de chocolate e penso. Penso no quanto as coisas são provisórias. Em nossos relacionamentos somos assim também. Procuramos receber bem as novas pessoas que vêm em nossas vidas, mesmo quando já tivemos outras, e quando cada uma teve a sua história, sua marca. Mas aí, chega um momento em que começam a aprontar. Você faz de tudo pra não perder, pra não sairem de sua vida, mas elas simplesmente não entendem, não querem, seguem seus instintos e seu bel-prazer. E chega, enfim, o dia do despitch. Felizmente, não estou vivendo tal situação. Este é um comentário que me pareceu lógico, depois de tanto falar no Tadeu e suas traquinagens. E lembro que quando meu avô era vivo, gostava de olhar "A corrida maluca", e eu assistia com ele, em sua TV preto e branco. E aí, pergunto... o rabugento ria por que ?? ...

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